Selic, inflação e fiscal: o que mudou no mercado em setembro de 2026
Copom mantém tom firme, BC revisa PIB para baixo e pressões externas dominam o comportamento de ativos.
A semana que redefiniu as expectativas
Entre 22 e 25 de setembro de 2026, três eventos concentraram o foco dos mercados brasileiros. Na terça-feira, o Banco Central publicou a ata da 281ª reunião do Copom, que havia reduzido a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano em 16 de setembro. Na quinta-feira, o Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro trouxe revisões importantes nas projeções macroeconômicas. E na sexta-feira, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de setembro foi divulgado. Juntos, esses dados moldaram a percepção do mercado sobre o ritmo da desinflação e os riscos que ainda pairam sobre a economia.
O Copom, ao cortar juros pela quinta vez consecutiva em 0,25 ponto percentual, adotou tom mais firme que o esperado. O Banco Central reforçou a necessidade de manter a taxa em patamar contracionista por um período prolongado para conter a inflação e mitigar riscos fiscais. Essa sinalização gerou reação inicial de queda no Ibovespa na terça, embora o índice tenha se recuperado ao longo da sessão.
Inflação e crescimento: as pressões sobre a frente econômica
O RPM divulgado na quinta-feira trouxe duas revisões que pesaram sobre os ativos: a projeção de crescimento do PIB de 2026 caiu de 2,0% para 1,8%, enquanto a de 2027 passou para 1,4%. Mais relevante para o cenário de juros foi a trajetória da inflação. O Banco Central projeta IPCA acumulado em 12 meses em 3,1% até pelo menos o primeiro trimestre de 2029, mantendo-se acima do centro da meta de 3,0%. O índice é esperado em 4,4% no terceiro trimestre de 2026 e em 5,2% ao fim do ano.
Essas cifras reforçam por que o Banco Central sinaliza cautela ao afrouxar juros. A inflação segue acima do alvo, e a velocidade de desinflação é mais lenta que o desejado. Esse cenário também explica por que o Boletim Focus, que reúne as projeções das principais instituições financeiras, precificava ao final de setembro apenas um corte adicional de 0,25 ponto antes do encerramento de 2026, levando a Selic para 13,50%.
O fiscal voltou ao centro das atenções
Se a política monetária sinalizou cautela, a frente fiscal trouxe uma surpresa desconfortável. O Banco Central revisou a projeção do resultado primário de 2026 de um superávit de R$ 10,8 bilhões para um déficit de R$ 13,6 bilhões. Essa inversão de nearly R$ 25 bilhões refletiu a desaceleração da arrecadação e o ajuste das despesas, e adicionou pressão significativa sobre os ativos domésticos.
O mercado interpretou essa revisão como um sinal de que os desafios fiscais estruturais seguem presentes. A divergência com o Ministério da Fazenda, que manteve a projeção de crescimento em 2,0% para 2026, também reforçou o debate sobre o impacto da Selic elevada na atividade econômica. Paralelamente, a confiança do consumidor recuou: o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Fundação Getulio Vargas caiu 0,50 ponto para 84,20 em setembro, seu menor nível desde novembro de 2022.
Câmbio e bolsa sob pressão externa e doméstica
O Ibovespa fechou a quinta-feira (24) em queda de 0,99%, a 183.965 pontos. O dólar comercial operou em alta para R$ 5,19, refletindo o fortalecimento do dólar global (com o índice DXY em 101,27) e a aversão a risco sobre ativos brasileiros. O cenário externo contribuiu de forma significativa: os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos avançaram acima de 5,00% ao ano, sinalizando que o Federal Reserve mantém cautela em relação ao ritmo de redução de juros. O S&P 500 registrou variação negativa no período.
Adicionalmente, tensões geopolíticas adicionaram volatilidade aos mercados. Um ataque com mísseis dos houthis contra a Arábia Saudita pressionou os contratos de petróleo: o West Texas Intermediate fechou em alta de 2,70% a USD 94,61 por barril na quinta-feira, enquanto o Brent avançou 3,40% para USD 106,60.
O componente eleitoral em compasso de espera
Nas semanas anteriores, pesquisas eleitorais otimistas e esperança de continuidade política haviam funcionado como catalisador de entrada de capital externo na bolsa brasileira. Em setembro, o cenário mudou. Pesquisas de Quaest e Datafolha divulgadas ao longo da semana apontavam empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno, com diferença de apenas um ponto percentual.
Esse resultado introduziu incerteza legítima sobre a trajetória da política econômica a partir de 2027. Bancos e casas de análise revisaram projeções para o mercado com base nos riscos associados à indefinição do cenário político. O movimento que havia sustentado o Ibovespa nas semanas anteriores arrefeceu diante da combinação de pressões externas, revisão fiscal negativa e tom mais conservador do Banco Central.
Navegando o ciclo: o que leva a reflexão
A semana encerrada em 25 de setembro reuniu, em poucos dias, os principais elementos que definem o ambiente de investimentos no Brasil neste momento. Uma política monetária ainda contracionista, mas em ciclo de afrouxamento gradual. Uma inflação que segue acima do centro da meta e limita a velocidade desse processo. Um cenário fiscal que voltou ao centro das atenções. E pressões externas via Treasuries elevados e volatilidade no petróleo.
Os movimentos desta semana reforçam a relevância de uma estrutura de carteira equilibrada, ancorada em fundamentos e com disciplina de alocação entre classes de ativos e prazos. A diversificação segue sendo o principal amortecedor de volatilidade para quem está posicionado no longo prazo. Seguimos acompanhando atentamente como essas variáveis evoluem nas próximas semanas e como as declarações de membros do Copom, os dados de atividade e emprego nos Estados Unidos, e os desdobramentos do cenário eleitoral podem redefinir o posicionamento dos mercados.