IPCA-15 abaixo do esperado muda o cálculo para a Selic em agosto
Inflação mensal cai abaixo das projeções; Ibovespa reage positivo e externa está mais tranquila
O dado que muda o tabuleiro
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou, na terça-feira (28 de julho), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de julho: 0,06%. O mercado esperava 0,18%. A diferença, aparentemente pequena, tem peso real nas contas do patrimônio e nas decisões de política monetária que vêm pela frente.
No acumulado de 12 meses, o indicador chegou a 4,52%, ligeiramente acima do teto da meta de inflação do Banco Central, que é 4,50% ao ano. Mas o importante aqui não é ficar preso ao detalhe da banda: é que a pressão de preços no mês de julho foi menor que o consenso esperava. O índice de difusão, que mede quantos itens da cesta tiveram aumento, também recuou, sinalizando desaceleração mais ampla.
Na mesma semana, o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), divulgado pela FGV na quinta-feira (30), caiu 1,16%, queda maior que a projeção do mercado. Juntos, esses dois sinais fizeram o mercado reler o cenário de inflação de curto prazo como mais benigno do que vinha precificando.
Selic em transição, ainda em patamar elevado
Com o IPCA-15 mais fraco, as apostas em um corte de 0,25 ponto percentual na Selic se consolidaram para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) nos dias 4 e 5 de agosto. A taxa está atualmente em 14,25% ao ano, após redução promovida pelo Copom em junho. Um novo corte a levaria a 14,00%.
O que merece atenção aqui é o ritmo. O Banco Central começou a reduzir juros em junho, com movimentos de 0,25 ponto percentual. O Boletim Focus, que consolida as projeções das principais instituições financeiras, sugere que o mercado aposta em apenas mais um corte adicional até o fim de 2026, além do esperado para agosto. Isso significa que a Selic deve ficar ao redor de 14,00% ao ano no encerramento do ano.
Para quem acompanha patrimônio em horizonte de médio e longo prazo, o cenário é claro: juros ainda em patamar restritivo, em processo de redução gradual e cauteloso. As projeções para inflação de 2026 caíram para 5,15% na mediana do Focus, mas ainda acima do teto de 4,50%. Para 2027, a projeção está em 4,10%. O BC segue em postura de pé atrás quanto ao ritmo do afrouxamento monetário.
Exterior oferece respiro pontual
Enquanto o Brasil lidava com o IPCA-15, o Federal Reserve encerrou sua reunião de 29 de julho sem alterar a taxa de juros americana. O comunicado reafirmou cautela diante da persistência da inflação, sinalizando que novos movimentos dependerão da evolução dos dados econômicos.
Na quinta-feira (30), o Índice de Preços de Gastos com Consumo Pessoal (PCE), a métrica preferida do Fed, veio em linha com as estimativas. O resultado foi suficiente para trazer de volta o apetite por risco nos mercados globais. O S&P 500 avançou 1,7% naquele pregão, aos 7.437 pontos, liderado pela recuperação de ações de tecnologia.
Para o Brasil, esse alívio externo se traduziu em dois movimentos: o Ibovespa encerrou quinta-feira (30) em alta de 1,88%, aos 177.159 pontos, acumulando +1,79% na semana, impulsionado por bancos e Petrobras. E o dólar comercial recuou a R$ 5,06, queda de 0,92% no pregão, refletindo retomada de entrada de recursos estrangeiros. O cenário exterior ainda combina juros americanos elevados por mais tempo, mas ao menos sinalizou que a inflação não está fora de controle.
O que acompanhar adiante
A semana que começa a partir de segunda-feira (2 de agosto) entra em modo de atenção à reunião do Copom de 4 e 5 de agosto. O comunicado oficial será divulgado na noite de quarta-feira (5), após o fechamento dos mercados. O mercado majoritariamente projeta o corte de 0,25 ponto percentual, mas o tom da comunicação sobre os passos seguintes será tão importante quanto o movimento em si.
Paralelo a isso, acompanhamos a ata do Copom, prevista para 12 de agosto, que detalhará o diagnóstico dos membros do comitê sobre inflação, câmbio e atividade económica. Nos EUA, indicadores de emprego e produção industrial americana seguem no radar, com impacto direto no comportamento do Fed e, consequentemente, no dólar globalmente.
Do ponto de vista estrutural, o cenário que se desenha é de Selic em transição para baixo, porém ainda restritiva; inflação acima da meta para 2026; e exterior com juros elevados por mais tempo. São variáveis que pedem carteiras bem diversificadas, com horizonte de médio e longo prazo e disciplina na manutenção da estratégia. O IPCA-15 trouxe alívio, mas não apaga os desafios de fundo.